quinta-feira, 12 de março de 2009

O significado do desporto


O Homem é corpo-mente (alma)- natureza-sociedade, e tudo isto significa mais do que a simples soma de partes, constitui no final aquilo que nos torna a cada um de nós, indivíduos, seres únicos. O termos um corpo e sermos um corpo, aprisiona-nos e ao mesmo tempo, possibilita-nos um mundo de acções, realizações... Em suma, não existe desenvolvimento humano sem movimento.
Ora o desporto também deve ser entendido num prisma complexo, não se destina tão só ao corpo físico, mas também à alma, tanto à natureza como à sociedade. No quadro de valores dominantes, as motivações para o desporto passam muito pela sua instrumentalização: para ter um corpo mais esbelto, para adquirir algum estatuto social, para alimentar a vaidade do ego e afirmar-me individualmente, para ganhar dinheiro... etc, etc... O conjunto de motivações pode ser variado e multidimensional...

Acontece que para outros (incluindo eu) o desporto funciona como um domínio essencial (embora não totalmente coincidente) do Ser. Não totalmente porque somos sempre mais do que aquilo que fazemos. Mas essencial, porque através do desporto desenvolvemos todos os domínios que nos conduzem a um maior grau de desenvolvimento como seres humanos. Porque a minha componente como atleta caracteriza, condiciona e define em parte quem sou.

É orientados por este princípio de desenvolvimento que deveremos encarar determinados aspectos da competição e da nossa participação como atletas. Apresento a minha perspectiva sobre alguns deles:

As vitórias e as derrotas: o percurso de aprimoramento da performance desportiva ganha tanto com as vitórias como com as derrotas. A importância dos resultados depende muito das motivações dos atletas e dos grupos e condicionam toda uma estratégia que para eles se orienta. É importante que, quando a vitória é muito valorizada como objectivo, todos os elementos envolvidos percebam muito bem as implicações dessa valorização em termos de treino, de tempo, de dedicação, etc, etc, etc... E que entendam que falhas na estratégia, deixam mais espaço à influência de factores menos controláveis como a sorte, o acaso, os humores dos atletas, o grau de confiança exibido, etc...

Por outro lado, numa perspectiva que tento adoptar para outros domínios da vida, penso que o sucesso e o fracasso são de tal maneira circunstanciais que, animica e emocionalmente, nem podemos rejubilar de vaidade com uns, nem afundar de frustração com os outros; mas assumir ambos com a naturalidade que provém da certeza que nada existe no mundo sem o seu oposto. Desenvolver o princípio da equanimidade. Aceitar sem julgamento quer o que consideramos bom, quer o que consideramos mau; como realidades indispensáveis ao nosso crescimento.

O Ser, o Parecer, o Estar
Quando o desporto e identidade assumem alguma coincidência, é natural que, no contexto da sua prática, essa limpidez de carácter transpareça... ainda mais, como Norbert Elias proclamou, o espaço do desporto é um dos poucos espaços que temos disponíveis para a expressão emocional de aspectos normalmente condenáveis e reprimidos no nosso dia-a-dia. Penso que uma pessoa tendencionalmente emotiva e expansiva, irá poderá permitir-se alguns excessos no contexto desportivo, tanto no pólo das emoções positivas, como no pólo oposto. Por outro lado, é muito importante que combatividade e desejo de superação não signifiquem agressividade. E quando chega a esse ponto, parece-me que passa a ser também condenável neste oásis emocional que o contexto desportivo pode constituir .

Nesta reflexão, cabe ainda entender, no contexto da performance, qual o nível de controlo, expressão ou repressão de emoções, a que corresponde a melhor performance desportiva. Se há pessoas que competem sem qualquer expressão emotiva, e assim conseguem produzir o melhor; outras há que usando determinados mecanismos de expressão emocional (entre os quais se inclui o "palavrão") aliviam tensões e encerram episódios.

Outro aspecto importante deste 2º ponto é o controlo emocional de cada indivíduo, quando a sua performance depende e está dependente de companheiros. Aí. claro que o equilíbrio tem de ser procurado, entre a satisfação e expressão das necessidades individuais e colectivas. Por isso é que explosões de frustração ocasionais devem, muito provavelmente, ser evitadas, quando os seus efeitos são manifestamente negativos para a equipa.

O último ponto a abordar diz respeito a uma forma muito particular de encarar o adversário, da qual me esqueço, de tempos a tempos, sobretudo em situações de frustração e tensão... que é a de encarar todos os agentes da competição como essenciais para o meu desenvolvimento, como parceiros e não como adversários. Assim, todos os pressupostos adversários, seja qual for o seu nível, exigem de mim que tente apresentar a minha melhor performance. O desleixo, além de falta de humildade denota falta de respeito. Claro que, mercê da tal libertação emocional inerente à competição, os actos nem sempre denotem esta postura... ainda há que trabalhar nisso... :)


Em suma, tudo isto para dizer que acabei o último jogo com sentimento pessoal de embaraço, por não ter conseguido controlar as minhas emoções de forma a que estas não prejudicassem o meu desempenho; mas sobretudo que não abalassem outros.... Porque depois fiquei também abalada com o facto de ter abalado terceiros... Peço que não me julgem por episódios e tenham sempre presente que nunca nada que aconteça em campo pode abalar o respeito e estima que tenho por todos os colegas de equipa e treinadores... neste caso particular, penso que alguma frustração com a minha própria prestação foi decisivo no avolumar de algum nível de descontrolo emocional... ainda para mais, quando eu vejo no banco pessoas que gostam tanto de jogar como eu....


Tenho dito, e aqui fica o meu primeiro e último(?) acto de contrição público... Sem crucificação, que acho que o caso também não é para tanto.

5 comentários:

  1. Ó Inês, eu sei q o texto é longo, mas também não é preciso chorar... :) Bem, obrigada por leres.
    Espero ter estimulado um pouco a reflexão, porque é importante de vez em quando parar e perceber pk fazemos o que fazemos, e não nos limitarmos a ser autómatos, empurrados pelo lufa-lufa da vida.

    tu tb adoras aquilo... nota-se...

    mena

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  2. Tenho de te dizer que adorei o texto,não só pela forma como está escrito,mas por nas tuas palavras rever montes de situações e sentimentos por que todos(as) passamos..quanto a reflexão posso te garantir que este texto ajuda e muito,mas se há coisa que acontece é depois de cada jogo e de cada treino sair de lá a matutar em todas as coisas que acontecem e tentar perceber o pk de algumas...

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  3. Grande texto Mena e grandes palavras. Custa muito ver os mesmos erros a cada jogo que passa e ninguem faz nada para os mudar. É dificil estar de fora mas aprende-se muito, analisa-se muito ouvem-se os comentários. Os erros da equipa, jogadoras e treinadores, e certas teimosias tanto nossas como deles levam ao fracasso em sintuações em que este podia ser evitado. Uma coisa tenho que enaltecer, que é o esforço que têm feito com uma equipa que neste momento está um pouco desmembrada e sem as soluções que teve em tempos e mesmo assim lutam jogo a jogo. Vamos arranjar juntas soluções para que não nos voltemos a arrepender de no fim não termos dado tudo e de termos cometido erros atras de erros. Vamos chegar ao fim e querer dar o BERRO com o coração e pensar em todas as que queriam estar em campo e não estão quando cada uma de nós lá está. #6

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