terça-feira, 17 de março de 2009

O stress competitivo: esse "papão"...

O stress competitivo é um factor fundamental da competição, ainda que alguns o desvalorizem. Nos anos em que jogava muito pouco acontecia treinar muito bem e jogar muito mal. Sofria de stress competitivo agudo e nenhum dos meus treinadores me soube ajudar. Era de tal forma grave, que perdia toda a coordenação do meu corpo e não conseguia realizar gestos básicos de forma desenvolta. O stress competitivo exagerado é um problema, mesmo em atletas de topo. Basta olhar para o "falhanço" da prestação de Naide Gomes nos Jogos Olímpicos.

Bem, estive a ler, a reflectir e a aproveitar a minha vivência para tentar ajudar neste tema.

As fases do stress competitivo são as seguintes:

1) A exigência do contexto (tipo de prova, por exemplo); 2) a percepção pessoal dessa exigência; 3) a resposta de stress (entre o muito nervosa, ansiosa ou completamente despreocupada e 4) as consequências no comportamento.

As fontes mais importantes de stress são:
- o carácter e importância da competição (jogos de campeonato são menos stressantes do que jogos a eliminar)
-a incerteza do que vai acontecer
-a incerteza do papel que tenho de desempenhar.

Os psicólogos do desporto apresentam-nos o conceito de nível de activação emocional óptimo, ou seja, aquele estado emocional que proporcione a melhor performance, que é individual, mas que não pode ser nem de demasiado descontracção porque diminui o estado de alerta, especialmente importante em desportos rápidos e explosivos, de reacção, como o voleibol; nem demasiado preocupado porque restringe a performance, por diversos efeitos físicos e psicológicos. Cada atleta, ao longo do seu percurso deve ter consciência de qual o seu nível óptimo, das sensações que tem nesse estado, e tentar regulá-lo quer em treino (como há menos stress, deve ter estratégias pessoais para o aumentar), quer em jogo, em que necessita normalmente de o diminuir. Este treino e aprendizagem constrói-se ao longo de anos.

A seguir apresento algumas dicas práticas. Penso que muitas delas podem ser mesmo muito importantes para o rendimento de cada uma.


1. Usar a imagética (consultar net, se alguém estiver interessado, faculto artigos sb o tema) ou visualização mental. Nos treinos, antes e/ ou durante o jogo, duma forma equilibrada, gradual e não obsessiva.

a) ponto de vista externo: em estado de relaxamento induzido, ou mesmo em treino, treinar por visualização mental. Neste caso, observar a sua prestação como se fosse um espectador, a realizar cada gesto da forma que acha que constitui a sua melhor performance. Insistir num gesto especifico (com várias repetições) ou na prestação na globalidade, consoante as necessidades. No treino, trata-se de tentar visualizar antes de realizar o gesto. Isso acontece de uma forma natural, mas também pode e deve ser consciente.

b) interna: mais proprioceptiva do que a primeira.deve mentalmente ir realizando o gesto, mas agora o ponto do observador está dentro de si. Deve tentar reproduzir as mesmas sensações, tácteis, auditivas, emocionais, proprioceptivas (sensações do corpo). Nas duas deve realizar acçóes de sucesso, mas pode também realizar acções de insucesso que são superadas sem grande dificuldade. Não há prestação sem erros. muito raramente. também é importante estar preparado para os superar. Este 2º tipo requer mais tempo de treino e mais experiência. O 1º é mais simples mas também menos eficaz.


2- ter objectivos específicos para cada treino, de acordo com aquilo que acha que podem ser as exigências da competição para si. Se não sabe quais são, deve falar com o treinador e perguntar quais é que podem ser, para que é que tem de se preparar.. Neste caso, penso que é óbvio que todas as pessoas suplentes devem estar preparadas e mentalizadas para usar o serviço como uma arma, e em seguida receber e defender, como mais valias que podem apresentar. Há outros casos de pessoas que podem ajudar a ganhar jogos no bloco, ou no ataque. penso que umas e outra sabem quem são. Como são situações muito pontuais é complicado exibir muita confiança. Não é fácil, mas é nisso que têm de trabalhar. Pode ajudar se o treinador for utilizando estes recursos frequentemente, mesmo em situações de menor tensão do jogo, porque prepara para esses momentos.

3- Fazer a auto-avaliação no final de cada treino para não se desviar dos objectivos específicos traçados. não tem de ser formal. pode ser apenas uma reflexão. Se formos para o treino treinar tudo, dificilmente treinamos alguma coisa. cada jogadora tem também essa responsabilidade de conduzir o seu próprio treino. Como exemplo pessoal, eu tenho tentado não mexer o pé no serviço e lançar a bola para a frente e não para cima de mim, bem como servir para espaços vazio do campo e nas costas do passador...

Já faço o resto. agora vou ao xinásio....´

ok. voltando....

4- Se no treino o atleta estiver demasiado letárgico (vulgo preguiçoso), deve tentar criar um pouco mais de pressão para si... pode estabelecer objectivos com consequências se não cumprir... (os tais saltos da Anabela). Eu não faço saltos desses porque duma das últimas vezes, desloquei uma vértebra e fiquei sem me mexer...eheheh

5- Treinar a "self talk" positiva, afastar os comentários negativos do género, "é sempre a mesma coisa, não faço nada de jeito, que estúpida"... podem pôr as culpas na bola e chamar-lhe nomes...ehehe, substituir por "fiz assim, devia ter feito ...", há atletas que repetem o gesto que deveriam ter feito... palavras de incentivo como vamos lá, tu consegues, ... se for um ataque falhado, encher o peito de ar e pedir novamente a bola à passadora...etc...etc...

6- Encarar a competição como um momento de alegria, de realização, como um desafio ao alcance, onde se pode fruir algo de que se gosta muito; valorizar a prestação, o esforço na prestação e não tanto o resultado final. O resultado virá com justeza... e se a derrota acontecer, pelo menos tudo se fez para alcançar a vitória. O respeito por mim será mantido com base nesse princípio. E tudo o resto é um pouco periférico... e menos importante. Desistir de lutar é que é a pior das cobardias.

No dia do jogo:

1- Manter as rotinas habituais, qualquer que seja o jogo. Bem, se a rotina habitual é ir para a cama às 7 da manhã e acordar a 2 horas do jogo, posso dizer que não é nada aconselhável. Mesmo que fisicamente pareça estar tudo bem, a falta de descanso retira tranquilidade, e aumenta a sensibilidade a qualquer situação de stress. Mas a ideia é que mudar comportamentos em função dum jogo específico, pode trazer mais stress... quanto mais importante, mais nos devemos cingir ao que é habitual. O stress já está suficientemente presente. Significa que experimentar visualização mental nesse dia não é bom, a não ser que já esteja treinado e seja habitual.

2- Conseguir identificar o nível de activação em que se está... se se estiver muito ansiosa, alongar um pouco mais, prolongar o aquecimento, tomar algumas medidas para relaxar (respirando devagar...), conversar com colegas... (ver o documento que vai ser anexado)

3- Permitir-se entrar em estado de "flow"... go with the flow... ir com a corrente... O estado de flow é aquele em o atleta está de tal forma concentrado que fica totalmente absorto na sua performance, e tudo o q é exterior a isso é praticamente ignorado. Acontece frequentemente eu não me lembrar de quem jogou do outro lado...(às vezes até do meu...). Porque em vez de pessoas, vejo jogadoras, peças de um jogo.

4- focar a atenção (vulgo concentrar-se) no que tem de fazer imediatamente a seguir, dependendo do gesto. Antes de receber, tenho sempre o mesmo procedimento, visualizo a bola a vir para a minha área de intervenção, a minha deslocação, o meu gesto (no geral, sem grande atenção à técnica) e o resultado com sucesso. O mesmo se pode fazer com o serviço. No caso de outros gestos, uma vez que o volei apresenta muitas variáveis, é importante mantermo-nos completamente alerta, e confiantes que na altura apresentaremos a melhor solução, que já foi ensaiada vezes sem conta.

5- Quanto ao resultado, tento pensar em ganhar sempre o próximo ponto, ou este ponto. E assim se vai construindo o jogo. Cada ponto é precioso. Pensar na vitória... está longe, é pouco prático, muito abstracto e induz maior stress. Mas com a atitude de ganhar cada ponto, se constrói a vitória. Na praia, em que a acção acontece em todas as jogadas, é a única forma de não entrar em "paranóia", sobretudo quando as coisas não correm bem.

6- Em alguns gestos, mais individuais como o serviço, cumprir uma rotina, no meu caso uso: respirar fundo e descontrair ombros (alivia ansiedade), escolher um ponto no campo adversário, ou "uma vítima" ou espaços entre jogadoras, foco o local da rede onde a bola deverá passar e executo o gesto sem pensar muito na técnica. Penso que o momento do jogo não é o ideal para aprimorar técnica, mas focar mais o resultado final da acção, ou a acção no seu todo, sem grandes detalhes. Já é suficientemente complicado tentar colocar num determinado local, quanto mais pensar também no como fazer isso... Mas isto, como outras coisas que aqui apresento, são discutíveis e pode depender de pessoa para pessoa. Bem, mas importante no serviço é não dar espaço nem tempo para o pensamento fatal: "vou falhar". cumprir a rotina e servir sem grande demora. se tiver que esperar, aproveitar para descontrair, jogar um bocado de basquete..., sei lá, quebrar um serviço por exemplo com um desconto de tempo é uma estratégia ao alcance do treinador... nunca se pode falhar a seguir...

7- Saber que há pessoas que vão fazer tudo para compensar as minhas falhas, se elas acontecerem;

8-Pedir ajuda a colegas, se sentir falta de confiança momentânea, ter a humildade de pedir apoio... já aconteceu pedir à Inês Krug para assumir um pouco mais a recepção e também o contrário: perguntar se precisavam de uma mão... este pedido de ajuda pode libertar-nos um pouco da tensão e estimula e dá confiança à colega (a não ser que também esteja aflita... xiiii...)

7- Em alguns momentos, se a atleta se sentir com muita confiança, num dia bom, penso que também poderá oferecer ajuda, comunicar isso à passadora, ajuda a tranquilizar a equipa...

O treinador:

1- Penso que é importante que a comunicação daquilo que espera da prestação do atleta seja clara e que vá sendo comunicada com alguma antecedência relativamente ao jogo, com sensibilidade, para não pressionar demasiado. Mas permite ao atleta ir treinando estratégias para se sair bem nesse dia... diminui o grau de incerteza e desenvolve a confiança entre treinador e atleta.

2- Ser positivo relativamente aos erros, mas firme. Definir bem qual foi o erro e apresentar a sua correcção, estimular a racionalização do jogo. Por que razão tomar esta opção e não outra?...

3- Acreditar de forma incondicional na sua equipa... se não acreditar, mesmo que o diga, a sua linguagem corporal denuncia-o.

no jogo:

1- Tentar incutir o nível óptimo de activação da equipa, se estiver demasiado ansiosa acalmar, e se estiver demasiado tranquila apresentar objectivos que sejam um desafio.

2- Tentar dar dicas o mais objectivas e concretas possível e apenas as mais importantes (mais uma vez é importante o equilíbrio pois o atleta deve sentir-se com capacidade para tomar as opções acertadas):
ex:
  • apostem naquela jogadora no serviço;
  • ataquem agora mais para o fundo, e dps veremos quando é que se adaptam...

pistas concretas ajudam a focar o que é essencial e afastam a atenção dos sinais da ansiedade...

e aquilo que já acontece, pequenas frases que conferem energia anímica à equipa e estimulam a coesão.

bem, conto colocar aqui uns anexos...

um ou dois artigos e um trabalho do Vasco sobre regulação da activação com dicas práticas, algumas coincidentes. Acho este tema muito importante, e algo que tem de ser quase tão trabalhado como o treino físico.

Para que nos momentos decisivos, não falte a tal "cabeça"...

E ganharmos "força" psicológica, anímica... é só o q está a faltar de momento...

Beijão a todas... e todos... ehehe

desculpem o testamento... sofro de verborreia aguda...

xiiiii...

Ah, seria interessante saber a vossa opinião sobre estas dicas e também dizerem se têm alguma estratégia que vos ajude bastante... porque pode servir para outras pessoas... vocês são muito preguiçosas... nunca escrevem nada!!

nem de propósito hoje recebi um mail de promoção de um livro sobre este tema...Já fui ao site... vejam o vídeo promocional... o livro até pode ser um boa ferramenta, para quem se desenrascar em inglês.

http://winningstate.com/volleyball/

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